Apresentação

Estamos diante de magnífico livro que, por seu caráter marcadamente inovador, se constitui em importante e fundamental contribuição ao conhecimento histórico latino-americano no Brasil.

Num país em que a produção historiográfica sobre a América Latina – Cuba, especialmente – é consideravelmente rarefeita, este alentado estudo de abrangência incomparável sobre a Revolução Cubana escrito no Brasil revela simplicidade e densidade coexistindo simultaneamente pela extraordinária erudição do autor.

De origem acadêmica – doutorado na Universidade de São Paulo (USP) – com invulgar fluência, ritmo e elegância de estilo, o texto revela fundamentação histórica ancorada em quadro teórico geral de referência que utiliza competentemente a História de longa duração, cometimento de não pouca monta. Em procedimento científico irrepreensível José Rodrigues Mao Junior utiliza os autores de referência como base de análise, mas detém a hegemonia da construção do texto valendo-se, portanto, da produção historiográfica para sustentação científica e comprovação de suas conclusões. Nesse particular, o autor nos brinda com sua aptidão de, no âmbito do tratamento temático macroistórico, preservar o particular, o específico e manter, ao mesmo tempo, a tensão histórica, marco delimitador fundamental para obra histórica de porte.

Desse modo, a integração harmoniosa entre fontes, produção historiográfica e condução própria do texto fazem do presente livro magnífica obra de História latino-americana com esse recorte temporal ao mesmo tempo ambicioso e original.

A Revolução Cubana e a Questão Nacional  está colocado na linha dos trabalhos subseqüentes àqueles que surgiram imediatamente após Moncada ou na esteira da euforia da vitória da etapa armada da revolução e que tiveram, em maior ou menor medida, vinculação com a teoria do foco insurreicional (Jean Paul Sartre, Leo Huberman, Paul Sweezy, Wright Mills, Regis Debray e outros).

Após esse período de compreensão “superficial” da Revolução Cubana surgiram estudos que começaram a perceber essa revolução a partir do exame do desenvolvimento do capitalismo em Cuba, das relações sociais, da luta de classes e, então, do papel fundamental do campesinato na revolução e, no campo ideológico, do nacionalismo anti-imperialista. Referimo-nos a Gérard Pierre-Charles, o primeiro deles, mais Florestan Fernandes, Vânia Bambirra e Marcos Winocur a quem devemos o “precisamento” dos diferentes tipos de camponeses em Cuba e sua abertura para a reforma agrária coletiva.

Assim, A Revolução Cubana e a Questão Nacional aponta para a conceituação do nacionalismo do mundo periférico como questão emblemática ainda disponível para o debate. Nesse sentido, o nacionalismo do mundo periférico, segundo Mao Jr., é o nacionalismo portador de contradições com o imperialismo em nações de elaboração da nacionalidade não realizada, nacionalidade que não se completa pela desintegração social interna. O autor vale-se, então, de Horace Davis, para o qual a condenação de “todo” o nacionalismo por parte dos marxistas correspondia à maneira de pensar generalizada antes da Primeira Guerra Mundial, para concluir que condenar todo o nacionalismo é inaceitável porque isso significa condenar os movimentos de libertação nacional das colônias e dos países semi-coloniais.

Ademais, nosso autor socorre-se também do próprio Mao Tse Tung, para o qual o patriotismo constitui uma aplicação do internacionalismo na guerra de libertação nacional.

Desse modo, é elogiável, no presente livro, essa empreitada superadora de uma simplificação. O certo é que o objetivo é a análise do caso cubano – caso com características peculiares – onde o nacionalismo das classes populares constituiu-se em nacionalismo que tendia ao socialismo ou como ante-sala do socialismo. De qualquer modo, ao fim e ao cabo, o próprio Fidel Castro encarregou-se de fazer a ligação com José Martí.

Igualmente instigante constitui-se a abordagem do nacionalismo – agora de maneira pontual – como móvel ideológico através do qual se aglutinaram as forças políticas em disputa no seio do Governo Provisório logo após a vitória militar. A abordagem agora é do nacionalismo pós-vitória militar. A aproximação ao tema é adequada: a partir do exame crítico da trajetória do capitalismo em Cuba, chegar à percepção do neo-colonialismo aí vigente na primeira metade do século XX para ligá-lo, depois, ao tempo do Governo Provisório.

Desse modo, em relação aos estudos iniciais referidos, Mao Jr. avança bastante. O papel do campesinato e o do nacionalismo antiimperialista como motor ideológico da Revolução – o que permite a revolução dentro da revolução, conforme Florestan Fernandes – deixa para trás os trabalhos tópicos e pontuais anteriores que não conseguiram abarcar a magnitude do processo revolucionário conduzido pelas classes populares da ilha caribenha nessa sua peculiar condição.

Daí também a importância da avaliação da teoria marxista do nacionalismo – outra empreitada! – como contradição com o imperialismo no mundo periférico. Mao Jr. descarta compromisso com os apressados comentaristas, redutores do nacionalismo como fenômeno fascista e, nesse sentido, vinculado ao imperialismo e que desprezam suas contradições com ele no mundo periférico. Estas características são, entretanto, intrínsecas à elaboração da nacionalidade no mundo periférico, em Cuba, naturalmente, desde logo como condição necessária para se alcançar o internacionalismo que contemple o mundo democrático e igualitário do futuro. No caso particular de Cuba, condição para superar o nacional-democratismo e chegar a uma revolução anti-capitalista.

Por outro lado, particularmente relevante é a abordagem que o autor faz da relação entre exército rebelde, campesinato e hegemonia no processo revolucionário cubano. A discussão sobre a hegemonia e o papel político-revolucionário do camponês dá sentido à compreensão das forças motrizes fundamentais da Revolução Cubana. Ao mesmo tempo, o exército rebelde tornou-se principal instrumento de poder após a queda do regime de Fulgencio Batista em 1o de janeiro de1 959 e o autor conceitua e retrata, com acuidade, o papel da vanguarda e as forças e mecanismos de poder no momento da constituição do governo revolucionário.

Igualmente pertinente é a descrição que Mao Jr. faz da trajetória do Partido Socialista Popular (PSP), antes e durante a luta armada para, ao final, apoiar a Revolução. Na verdade, na ausência de quadros para a administração, Fidel Castro empenhou-se – e conseguiu – atraí-lo para o apoio à Revolução. Alcança também invulgar destaque no texto de Mao Jr. a atuação político-diplomática de Fidel depois da luta armada e a obtenção do poder político apoiado pelo Exército Rebelde. Esta aliança permitiu a vitória sobre a direita do Movimento 26 de Julho (M 26-7) e o PSP funcionou como contraponto político compensatório. Toda essa dinâmica ocorreu num quadro geral de simultânea atuação diplomática soviética. Entretanto, ressalte-se, o futuro Partido Comunista (PC) fundado a partir do poder estabelecido expressa a visão do exército rebelde – a força do poder – e não do PSP como partido político.

José Rodrigues Mao Jr. aponta, então, com os exemplos referidos, para o processo nacionalizador – era uma questão nacional, como diz o título do livro – que se estendeu entre abril de 1959 e outubro de 1963 e que construiu as bases fundamentais para o estabelecimento de uma economia socialista, isto é, rompeu as bases materiais e sociais em que se assentava a dominação imperialista sobre Cuba.

Desse modo, Mao Jr. chega, de maneira natural, ao fecho da tese fundamental de seu livro: a Revolução Cubana de 1959 inscreve-se como continuadora orgânica, em situações nacionais e internacionais, diferentes da Revolução martiana, acabando por realizar a etapa inconclusa da libertação nacional.

Em face do exposto saudamos esta obra instigante, invulgar e ampliadora do conhecimento histórico que se incorpora agora de forma magnífica à produção historiográfica brasileira sobre Cuba e América Latina.

 

Prof. Dr. Werner Altmann, Departamento de História da USP.